Tuesday, January 30, 2007

Horizonte

Com um olhar múltiplo, procuro em vão a linha do horizonte. Ou um destino até onde hei-de ir. Ciente, cismo que todas as proximidades têm o alcance das maiores distâncias. Aqui, em quanto avisto, a paisagem é um desígnio paralelo de oportunidades aparentes. Céu e terra fundem-se no mesmo logro de uma natureza apenas, inequívoca, de texturas sobrepostas em contrastes e tonalidades. Diluindo-se para o etéreo, obscurecendo no que me é mais cerca. Além da alusão, persiste um azul de neurastenia, esvaindo-se, caprichoso. Aquém da ilusão, mal se distingue a fisionomia densa, estigmatizada de relevos, socalcos e, talvez, uma estrada. O firmamento corresponde à mística fortuita de umas quantas nuvens – quais franjas esbranquiçadas – pairando, a espairecer. A complexidade que me apela à vida está nos sucessivos recortes de montanha – as alturas, os abismos – a confrontar-me o imaginário e a jornada.

José de Matos Cruz 16JAN2007

Árvore

Ainda não sou – senão uma minúscula semente, dispersa, esparsa, com alguma origem e sem qualquer destino. Depois, ao acaso, o meu voo suspende-se, e caio sobre a terra. Entranho-me. Em torpor, ganho vulto e pulsação. Emirjo do subsolo. Eis-me a respirar. A minha seiva impele-me. Cresço. Faço-me vulto, irradio em ramos. Enrijeço. Visto-me de folhas – exuberante e exposta. Passam a notar-me. Ao sol, extasio. Com outras árvores irmanada, a minha sombra recorta-se na relva. Frondosa, habitam-me os pássaros. Habituo-me. Desafio a tempestade, quase me verga. Resisto. Assim, estou. Envelheço e permaneço, estiolando, num torpor sem tempo. Enfim, retraio-me – disforme, coberta de fungos e de musgo. Ávida e farta, esmoreço. Começo a definhar. A partir das raízes exaustas. O tronco seca-me, estala. Restam-me uns braços esqueléticos. Nua, em vertigem – soçobro, sucumbo. Enquanto estou, existirei.

José de Matos Cruz 14JAN2007