Friday, April 6, 2007

Calçada



Solitário, jaz em cima do passeio. E, sobre ele, caminha gente indiferente. Repassam outros de regresso, ou que falharam o seu destino. Talvez os que o pisam cabisbaixos reparem nele.


É um aviso. Um vulto vítima. Um recorte de pessoa sem contornos regulares. Tracejado ao estilo dum alerta próximo e urgente, mas rápido e fortuito. Vamos lá ver se adiantou alguma coisa.


Depende da qualidade da tinta, sua definição vital. Da resistência a quantos o calcarem, sua motivação virtual. Reveste, aliás, um desígnio indelével – deixar marcas nos que transitam.


Está de rastos? Em pose oblíqua? Em postura equívoca?


Porque será? Quem o fixou? Sujeito acaso em lugar errado?


Valerá de alguma coisa? Ainda foi para ali a tempo?


Tem tantas letras, mas dá poucos sinais de si. Será aquela mancha no peito. O coração, parece. Esvaído, talvez nem sinta. Sem ânimo, sem relevo. Latejando, irrelevante, na calçada.
16FEV2007

Mutações



Sôfrega, a serpente de fogo lambe a crosta terrestre. Coleando sempre na horizontal, absorve toda a vida húmida. Interminável, torna este mundo um informe inferno.


É vistosa, luxuriante, arrepia. Precede-a uma lufada quente. Deixa cinzas, escombros, resíduos calcinados. No arfar das labaredas, leva consigo o elã virtual, fauna e flora.


Crepitam as chamas, com energia própria. É o capricho, já, de um monstro múltiplo, mutante, que no voraz mar de lume se consome e se consuma. Então, o braseiro alastra.


Só o homem emerge dos escombros ardentes. Magma e furor. Estrebucha, alardeia, vocifera, implora. Feito da costela ígnea, por espasmo de algum deus vulcânico.

Talvez o mesmo que lançou o anel de lava, de que a serpente se soltou a flamejar. Talvez uma criança enlouquecida, com a alma a queimar. Talvez um velho anjo em cremação.


15FEV2007

Premissas


Sempre, todas as chaminés estão viradas para o céu. Acaso a indústria aspirará à divindade? Os seres etéreos porventura respirarão monóxido de carbono?
O que correrá pelas tubagens industriais? Será o petróleo uma espécie de sangue fabril? As veias parecem estradas para o coração do homem.

O caminho para o progresso constrói-se em frente. No futuro, as árvores serão metálicas? Na lâmina do horizonte, cada um estará de costas para quem o segue?

A perspectiva forjada estrangulará as distâncias? Em linha recta artificial, quem descobrirá o seu objectivo? Cada lance de jornada prolonga as referências do destino.

Passo a passo, o instante reflectido é a memória do anterior. Que experiências próprias sobreviverão de um percurso uniforme? Terá cor a sequência monótona?
12FEV2007

Desígnios



Entre luzes e sombras. O sol reflecte, a noite transfigura.

Perpetuando glórias. Instituindo graças. Consagrando promessas. Congregando crenças. Estabelecendo cultos.

Planos, matrizes. Solos, alicerces. Colunas, claustros. Volumes, projecções. Pormenores, referências. Ideais, estilos. Austeridade, magnificência.

Homens, heróis, nobres, guerreiros, mártires, santos, fiéis, patronos, arquitectos, operários, sacerdotes, devotos, fantasmas, turistas. Virtuosos, visionários.

A nave imaginária. Intensa, intemporal.

Obra feita, ruína perfeita. Consumação, contemplação. A história, lida pedra a pedra.

Pelos séculos. Para sempre?

A mão humana virada para o Alto. E o olhar do Céu, que a tudo assiste?

07FEV2007

Persistência


É de metal fundido com a carne e o sangue dos que aqui subviveram. Produz um som tão cavo e fatal como o estilhaçar de ossos à bordoada e espadeirada.

Patenteia-se o fabricante. Não tem o nome dos artesãos que o modelaram entre suores e labaredas, ou que o timbraram até ficarem duros de ouvido.

Sobranceiro em quanto avista ou de onde poderia ser escutado. Quebrando o silêncio sobrenatural de místicos ou de guerreiros numa terra em transe.

Ora, talvez nunca em redor se combatesse. Nem agricultores amanhassem a fome, nem mulheres arranhassem o ventre, nem crianças alimentassem exércitos.

Porém um tal castelo, e mesmo que esta fosse uma torre para o céu… Quem ergueu, quem badalou um signo suspenso na altura de todas as inquietações?
06FEV2007

Monday, March 19, 2007

Alcances


Tal o capricho da natureza, a origem é um mistério. De onde existem sementes, na escuridão vegetal. Como nascem plantas. Para que brotam ramos, espasmos de luz cromática.
Ainda és jovem rebento. Hás-de crescer. Tronco forte, terás filhotes como tu. E, embriagado pelo despeito de não te atingir, dirá um miúdo ao engano: São verdes, não prestam.Apenas um nó com pétalas de roxo/azul, em fileira de tonalidades esverdeadas. Sobre fundo negro. Uns botões alvos, na ponta, por abrir. E alguns espinhos, para o que der e vier.Estás ao alcance da mão. Poderei chegar-te. Desfolhar-te, desflorar-te. Serás apenas uma haste nua. Crescerás ferida, sem graça. Nessa altura eu estarei mirrado. Incapaz de ti. Aparece de algures. Faz-se à imagem. Em ramalhete, falta-lhe tocar o outro lado. Não passa de uma ponta pendente. Flora animada, jóia abstracta. O que for, logo se verá.
02FEV2007

Alternativas



Com graciosidade, traça um risco contínuo através da vastidão etérea. Em breve se esbaterá. Mas entre o acto de ousar e a oclusão do rasto, exibe-se a volúpia do instante. Como se olhar suspendesse em foto fixa a vertigem da velocidade.Perícia de piloto. Domínio da mecânica. E o estro humano a ganhar asas numa acrobacia da existência. Poder sensoriar a sensação de poder.
Investindo para o vazio tendo em frente um desafio nebuloso.E em paralelo, de alto a baixo, o suplemento das equivalências. Ser visto e promover. Voar, marca e veículo. Planar em outro plano, a quatro rodas. Sugerir o prodígio duma condução sem distâncias, sem limites.Terá a extensão do céu algum destino? Terá o estímulo da velocidade alguma origem? Que pernas se fazem à estrada? Que braços se suspendem do infinito?

31JAN2007

Thursday, February 15, 2007

Reflexos

De quando nasce, e até à foz, consuma o rio um destino essencial: nasceu gota, morre em mar. Entretanto, definiu o seu trajecto: escorre por declives, acumula-se até transpor obstáculos. Às vezes, desfaz-se em cascatas. Logo recupera o leito virtual. Em certas épocas, tal é a seca que quase se esvai. Porém, a terra mantém as feridas da sua passagem, conserva os sulcos que a serpenteiam, para novas torrentes e enchentes. O caudal é a alma do rio: ainda outras vezes, alaga as margens, tudo inunda.

Nunca um rio será árido nem tédio: pode atenuar-se mas, por vocação, garante o solo arável.

E nada há mais cativante que um reflexo em suas águas, sobre a aparência estática. Esse espelho líquido em caprichos de traços, manchas, cores – e em que a imagem das pessoas se distorce, espalha, divaga... Vistas assim, é como se estivessem de pernas para o ar. Enquanto que, submersos, agitam-se os monstros.

30JAN2007

Vestígios


Perdidos no deserto, há pés que se esvaem na areia, antes que o mar dissolva os corpos que encaminham através da exaustão. Todas as distâncias têm um dispêndio, é líquido que todas as costas têm um custo, para quem ousar o alcance em que se narra a fímbria que separa entre terra e água. E, se a quem nada, nada de bom aguarda, almejando o abismo, quebrar a obstinação das serras encerra o prazer de cortar ondas, na expectativa de uma estrada plana. O olhar que vê ao fundo, distinguindo vultos semoventes, entre a espuma e as rochas, contempla a mesma equidistância da sua fixação pelo balanceio alheio. E afinal estes vestígios, traçados em solo movediço, firmam também um percurso a solo, já transcrito. Até que uma vaga os torne imperceptíveis, diluindo para sempre a sua efémera passagem... Quem formulou um sentido para tais palavras? Quem procurou algo em algures, permanecendo suspenso num instante?

29JAN2007

História


A história faz-se entre monumentos do passado e vestígios do presente. Pedras que eternizam feitos, ruínas que simbolizam factos. Uma memória construída para o esplendor, uma janela aberta para o futuro. As sombras que se projectam numa parede descarnada já de estilos, de inscrições. A dimensão que se recorta num rectângulo possível para o azul, para o vazio.

Que heróis deixaram que contar, que mãos de homens ergueram tal aparência na paisagem? Como se adensou um tal negrume reflectido, contrastado na abertura ante um céu imponderável?

Porque quiseram alguns prevalecer, entre mitos e misticismos?

Como lograrão outros permanecer, os transitórios e visionários?

– Armei-me, avassalei e, sobre tudo, conquistei. Eis a prova de que estive neste mundo, o testemunho da minha glória.

– Amarei, abalarei e, sobretudo, encantarei. Eis o tempo despojado de um olhar, a matéria etérea do meu imaginário.

25JAN2007