Friday, April 6, 2007

Iridescência

É como um arco-íris que escorrega do céu e, esmaecendo, se entranha pela terra adentro, para deixar à superfície uma aura indecisa de luz e cor.

O que encontra no seu negro auge de penetração – em que se transforma? O que deixa no desgaste rubro da sua agonia – será um novo resplendor?

Entre a magnitude e a melancolia, tinge-se o olhar no efémero dilema duma divagação. Matéria etérea, latejam todas as coisas feitas dum silêncio musical.

Crepúsculo, alvorada. Sempre com o mesmo perfil – implícito, indefinido – duma cíclica mutação. Esboçando o tempo, esvaindo a forma. Virtual. Eventual.

Espaço, presença. A distância permanece. Anseia a proximidade. No fausto mágico em que a realidade se suspende – fenómeno anterior, interior fascínio.
07MAR2007

Passagens



Em frente, é o caminho – perante o céu azul, como a esperança; erguendo as bandeiras cor do sangue, que nos faz viver; levando os cravos também vermelhos, símbolos entretanto memórias.


Entre tantos, partilhamos emoções, reivindicamos – mulheres desabrochadas de tantas dores e dádivas, eivados velhos num frémito de expectativa solidária, homens escavados da sua força, protecção da família e pão para a boca.
Jovens que ainda esboçam um sorriso colorido e colectivo. Gentes de todas as idades e de todos os tempos – irmanadas entre o silêncio da entrega e o soluço da partilha.


Uma língua de ritmos e coros, de carne e fogo que alastra pelas ruas. Instiga um destino, investe para um amanhã. Participa no mesmo sonho, reuniu-a todas as lutas.


Alguns, outros – das varandas, nos passeios – assistem e vêem passar, imaginam que vão para a festa.
02MAR2007

Aranhas



Uma névoa enovela a cortina de olhares: quem espreita para além de si, pondo à mostra a sua imagem?


A indiscrição é um olhar mudo no auge do pasmo, tecendo o indescritível. E, quando a retina óptica não basta, abastece-se a exibição com a máquina fotográfica.


Assim, o processo mecânico reproduzirá, fielmente, o instante exposto. Mas o flagrante, que trai a atenção humana, também atrai noutros motivos de observação.


Ansiedade, expectativa. Quem guarda o momento efémero, acaso aguarda o movimento que o defina?


Quem vigia, divaga? Ver, virá para o caso?


A curiosidade é um reflexo natural? Ou o predador visado enreda-se na própria teia de aparências e artifícios?


Aliás, reparando bem: a aranha antecipa o seu festim? Ou a vítima precipita a caça?
01MAR2007

Calçada



Solitário, jaz em cima do passeio. E, sobre ele, caminha gente indiferente. Repassam outros de regresso, ou que falharam o seu destino. Talvez os que o pisam cabisbaixos reparem nele.


É um aviso. Um vulto vítima. Um recorte de pessoa sem contornos regulares. Tracejado ao estilo dum alerta próximo e urgente, mas rápido e fortuito. Vamos lá ver se adiantou alguma coisa.


Depende da qualidade da tinta, sua definição vital. Da resistência a quantos o calcarem, sua motivação virtual. Reveste, aliás, um desígnio indelével – deixar marcas nos que transitam.


Está de rastos? Em pose oblíqua? Em postura equívoca?


Porque será? Quem o fixou? Sujeito acaso em lugar errado?


Valerá de alguma coisa? Ainda foi para ali a tempo?


Tem tantas letras, mas dá poucos sinais de si. Será aquela mancha no peito. O coração, parece. Esvaído, talvez nem sinta. Sem ânimo, sem relevo. Latejando, irrelevante, na calçada.
16FEV2007

Mutações



Sôfrega, a serpente de fogo lambe a crosta terrestre. Coleando sempre na horizontal, absorve toda a vida húmida. Interminável, torna este mundo um informe inferno.


É vistosa, luxuriante, arrepia. Precede-a uma lufada quente. Deixa cinzas, escombros, resíduos calcinados. No arfar das labaredas, leva consigo o elã virtual, fauna e flora.


Crepitam as chamas, com energia própria. É o capricho, já, de um monstro múltiplo, mutante, que no voraz mar de lume se consome e se consuma. Então, o braseiro alastra.


Só o homem emerge dos escombros ardentes. Magma e furor. Estrebucha, alardeia, vocifera, implora. Feito da costela ígnea, por espasmo de algum deus vulcânico.

Talvez o mesmo que lançou o anel de lava, de que a serpente se soltou a flamejar. Talvez uma criança enlouquecida, com a alma a queimar. Talvez um velho anjo em cremação.


15FEV2007

Premissas


Sempre, todas as chaminés estão viradas para o céu. Acaso a indústria aspirará à divindade? Os seres etéreos porventura respirarão monóxido de carbono?
O que correrá pelas tubagens industriais? Será o petróleo uma espécie de sangue fabril? As veias parecem estradas para o coração do homem.

O caminho para o progresso constrói-se em frente. No futuro, as árvores serão metálicas? Na lâmina do horizonte, cada um estará de costas para quem o segue?

A perspectiva forjada estrangulará as distâncias? Em linha recta artificial, quem descobrirá o seu objectivo? Cada lance de jornada prolonga as referências do destino.

Passo a passo, o instante reflectido é a memória do anterior. Que experiências próprias sobreviverão de um percurso uniforme? Terá cor a sequência monótona?
12FEV2007

Desígnios



Entre luzes e sombras. O sol reflecte, a noite transfigura.

Perpetuando glórias. Instituindo graças. Consagrando promessas. Congregando crenças. Estabelecendo cultos.

Planos, matrizes. Solos, alicerces. Colunas, claustros. Volumes, projecções. Pormenores, referências. Ideais, estilos. Austeridade, magnificência.

Homens, heróis, nobres, guerreiros, mártires, santos, fiéis, patronos, arquitectos, operários, sacerdotes, devotos, fantasmas, turistas. Virtuosos, visionários.

A nave imaginária. Intensa, intemporal.

Obra feita, ruína perfeita. Consumação, contemplação. A história, lida pedra a pedra.

Pelos séculos. Para sempre?

A mão humana virada para o Alto. E o olhar do Céu, que a tudo assiste?

07FEV2007

Persistência


É de metal fundido com a carne e o sangue dos que aqui subviveram. Produz um som tão cavo e fatal como o estilhaçar de ossos à bordoada e espadeirada.

Patenteia-se o fabricante. Não tem o nome dos artesãos que o modelaram entre suores e labaredas, ou que o timbraram até ficarem duros de ouvido.

Sobranceiro em quanto avista ou de onde poderia ser escutado. Quebrando o silêncio sobrenatural de místicos ou de guerreiros numa terra em transe.

Ora, talvez nunca em redor se combatesse. Nem agricultores amanhassem a fome, nem mulheres arranhassem o ventre, nem crianças alimentassem exércitos.

Porém um tal castelo, e mesmo que esta fosse uma torre para o céu… Quem ergueu, quem badalou um signo suspenso na altura de todas as inquietações?
06FEV2007

Monday, March 19, 2007

Alcances


Tal o capricho da natureza, a origem é um mistério. De onde existem sementes, na escuridão vegetal. Como nascem plantas. Para que brotam ramos, espasmos de luz cromática.
Ainda és jovem rebento. Hás-de crescer. Tronco forte, terás filhotes como tu. E, embriagado pelo despeito de não te atingir, dirá um miúdo ao engano: São verdes, não prestam.Apenas um nó com pétalas de roxo/azul, em fileira de tonalidades esverdeadas. Sobre fundo negro. Uns botões alvos, na ponta, por abrir. E alguns espinhos, para o que der e vier.Estás ao alcance da mão. Poderei chegar-te. Desfolhar-te, desflorar-te. Serás apenas uma haste nua. Crescerás ferida, sem graça. Nessa altura eu estarei mirrado. Incapaz de ti. Aparece de algures. Faz-se à imagem. Em ramalhete, falta-lhe tocar o outro lado. Não passa de uma ponta pendente. Flora animada, jóia abstracta. O que for, logo se verá.
02FEV2007

Alternativas



Com graciosidade, traça um risco contínuo através da vastidão etérea. Em breve se esbaterá. Mas entre o acto de ousar e a oclusão do rasto, exibe-se a volúpia do instante. Como se olhar suspendesse em foto fixa a vertigem da velocidade.Perícia de piloto. Domínio da mecânica. E o estro humano a ganhar asas numa acrobacia da existência. Poder sensoriar a sensação de poder.
Investindo para o vazio tendo em frente um desafio nebuloso.E em paralelo, de alto a baixo, o suplemento das equivalências. Ser visto e promover. Voar, marca e veículo. Planar em outro plano, a quatro rodas. Sugerir o prodígio duma condução sem distâncias, sem limites.Terá a extensão do céu algum destino? Terá o estímulo da velocidade alguma origem? Que pernas se fazem à estrada? Que braços se suspendem do infinito?

31JAN2007